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Em homenagem à Jurema

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Caminhada de Terreiros em 2009

terça-feira, abril 11, 2017

SEMANA SANTA E A JUREMA

Muito se discute sobre “Proibições Litúrgicas na Jurema” nesse período, venho trazer a vocês uma reflexão sobre uma situação ocorrida em 1990 no Terreiro do meu saudoso Bàbálòrìsá e Juremeiro Grivaldo Pereira e de minha Ìyálòrìsá Eunice Nepomuceno. 

Chego eu como de praxe, adentro pelo portão, saúdo a casa do “Grande Mensageiro e Guardião” que ficava do lado do portão, fui até ao lado do salão do Orixá de onde vejo ao fundo do quintal a parede do quarto dos ancestrais Ilê abó aku (mas popularmente chamado de Balé no Nagô Egbá) e a maravilhosa Gameleira e a Jaqueira que existia por trás do salão do Orixá, (local onde tive a honra de assistir vários atos litúrgicos com a presença de meu pai e alguns amigos, Srº Humberto Toriabê, João Galdino filho de Tia Mãezinha Iyámidê, Srº Zezinho Obálajô e dentre outras figuras do Candomblé (nesses rituais só tinha presença masculina), depois fui até o salão do Orixá e depois voltei ao quintal e fui até aos pés da árvore sagrada da Juremeira que ficava em frente ao terraço da casa de meu pai e de lado da escadaria que ao subir se chegava ao salão da Jurema. Pois no quintal do meu pai eram dois salões e a casa dele.

Pedi bênção a minha Mãe Eunice e a meu Pai Grivaldo que como sempre me dava logo um esporro. 

Ele dizia: É né chegou agora!
Deus te faça feliz.
Cadê dona Bazú?
Cadê Socorro e Valter?
Tem visto Araguacý? 

Eu de pronto respondia, (com voz baixa regada a muito respeito, assim era naquela época, muito diferente do tratamento de hoje em alguns terreiros onde a educação litúrgica é execrável). 

Ficamos ali conversando eu e ele, aquela figura imponente com aquele cachimbo na boca sentado num banco. Essa figura que carrego no coração para eternidade, só comparável ao meu Pai José Iguaracy Felipe da Costa que se tornou meu Pai após a perda física de Pai Grivaldo.

De repente em plena “Sexta-feira da Paixão” entra no quintal uma moça aos gritos... Srº Brivaldo me socorra!!!

Com uma criança nos braços desmaiada, meu Pai de pronto atendeu perguntando o que ocorreu, a moça relatou que a criança estava há dois dias com febre já tinha levado ao posto médico e quando volta para casa à febre retorna de tal forma que a criança desmaiava. Meu pai tomou aquela criança nos braços e ele entrou no quarto da Jurema, eu o auxiliei segurando a criança enquanto Mãe Nice acalmava a genitora desesperada. Alguém diz lá fora, meu Deus hoje é “Sexta-feira Santa” não é dia de mexer com espíritos. 

Depois de uma bela fumaçada no ar e um toque numa taça com um cipó de Jurema, meu velho estremeceu e acostou meu Padrinho Srº José da Pinga e aos berros disse “Louvado Seja Deus!!! Quem pode mas de que Deus?”
Pegou umas folhas de japecanga amaçou com cachaça e esfregou com força nos pés da menina e a criança foi tornando. 

Daí meu padrinho diz: “Leva essa criança ao homem do anel, que Deus e o encanto mestre vão ajudar isso é doença material não espiritual”.

Ele bebeu uma boa dose de Serra Grande, deu a paz e se afastou a criança já restabelecida pediu água e pediu comida, coisa que há quase um dia inteiro não fazia.

Depois de tudo resolvido eu perguntei... Pai como pode hoje “Sexta-feira Santa” o Mestre veio?

Ele no alto de seu saber e ciência me respondeu: “Oxente e o Mestre iria deixar a criança morrer”? Nessa mesma hora tem gente matando outras pessoas, gente nas casas de recursos (comumente era chamado às casas de prostituição e motéis da época), tudo bebendo e muitos fazendo mal aos outros. A cristandade é uma coisa o cristianismo é outra e a Jurema é o caminho seguro. 

 Texto publicado na Pagina do Facebook pelo Bàbálòórìsá e Juremeiro Sandro de Jucá

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